Em junho de 2025, o Brasil contava com pouco mais de 18 milhões de consentimentos ativos no open finance — autorizações de clientes para que instituições financeiras compartilhassem seus dados com outras empresas do ecossistema. Um ano depois, esse número ultrapassou 32 milhões, segundo relatório trimestral do Banco Central. O crescimento de 78% reflete tanto a maturação da infraestrutura técnica quanto a entrada de novos casos de uso, especialmente no segmento de crédito pessoal e consignado.
De pagamentos a crédito
A primeira fase do open finance no Brasil, iniciada em 2021, concentrou-se em dados de contas e cartões. A segunda fase, que inclui informações de operações de crédito, investimentos e câmbio, foi plenamente implementada em 2024 e mudou o perfil de uso. Fintechs de empréstimo passaram a utilizar o histórico financeiro compartilhado para oferecer taxas personalizadas — substituindo, em muitos casos, a análise baseada apenas em score de crédito tradicional.
Segundo levantamento da Associação Brasileira de Fintechs (ABF), 41% das operações de crédito pessoal abaixo de R$ 5 mil realizadas por associados em 2026 utilizaram dados do open finance na análise de risco. O percentual era de 19% no mesmo período de 2025. A mudança é relevante: permite que consumidores com histórico bancário positivo, mas score baixo por falta de cadastro, acessem crédito em condições melhores.
Quem está usando — e quem não está
A distribuição geográfica dos consentimentos ainda reflete desigualdades digitais do país. O Sudeste concentra 48% dos consentimentos ativos, proporcionalmente acima de sua participação na população. O Nordeste, com 27% da população brasileira, responde por apenas 18% dos consentimentos. Parte da diferença se explica pela menor penetração de fintechs regionais, mas também por desconfiança em relação ao compartilhamento de dados — tema recorrente em pesquisas qualitativas do BC.
A faixa etária de 25 a 44 anos representa 54% dos usuários ativos. Jovens entre 18 e 24 anos são os que mais concedem consentimentos em volume absoluto, mas também os que mais os revogam — possivelmente por experimentarem o serviço sem compreender plenamente as implicações.
Barreiras regulatórias e técnicas
Nem tudo avançou no ritmo esperado. A padronização de APIs entre instituições de porte distinto continua sendo um gargalo: bancos menores reportam dificuldades de integração que atrasam sua participação plena como receptores de dados. O Banco Central publicou em abril um cronograma de adequação que estende prazos para instituições de menor porte até dezembro de 2026.
Questões de segurança também geraram debate. Em março, um incidente envolvendo vazamento de tokens de acesso em uma fintech de médio porte levou o BC a reforçar requisitos de autenticação. Nenhum dado financeiro de clientes foi exposto, segundo a investigação, mas o episódio reacendeu discussões sobre responsabilidade civil em caso de falhas no ecossistema.
O open finance não é sinônimo de open banking. No Brasil, o escopo é mais amplo — inclui seguros, previdência e investimentos. Isso cria oportunidades, mas também complexidade regulatória.
A fase de dados abertos
A próxima etapa prevista pelo regulador é a incorporação de dados não financeiros ao ecossistema — o chamado open data. Informações de telecomunicações, energia e até saúde (com consentimento explícito) poderiam enriquecer modelos de análise de crédito e personalização de serviços. O BC abriu consulta pública sobre o tema em maio, com prazo de contribuições até agosto.
Especialistas ouvidos pelo Radar Brasil divergem sobre o calendário. Instituições financeiras maiores defendem cautela — argumentam que a infraestrutura atual ainda não está madura para absorver um escopo ampliado. Fintechs e associações de consumidores pressionam por aceleração, citando o potencial de inclusão financeira.
Perspectivas para o segundo semestre
Três tendências devem marcar os próximos meses: consolidação de marketplaces de crédito que comparam ofertas com base em dados compartilhados; expansão do open finance para o segmento de seguros, com piloto previsto para setembro; e maior fiscalização do BC sobre práticas de consentimento — incluindo verificação de que clientes compreendem o que estão autorizando.
Para o consumidor, a recomendação prática permanece a mesma: revisar periodicamente os consentimentos ativos no aplicativo do banco ou na plataforma do open finance, e revogar autorizações para serviços que não utiliza mais. O compartilhamento de dados é reversível — e essa reversibilidade é um dos pilares do modelo brasileiro.
Atualizado em 11/06/2026.