O Índice Nacional de Preços ao Consumidor Amplo (IPCA) registrou variação de 0,38% em maio de 2026, segundo dados divulgados pelo IBGE na segunda semana de junho. O número ficou abaixo da mediana das projeções de consultorias — que apontavam para 0,42% — e representa uma desaceleração em relação aos 0,51% de abril. À primeira vista, a leitura parece confortável. Mas uma análise mais granular mostra que a composição do índice continua desfavorável para a maioria das famílias de renda média e baixa.
Onde a inflação ainda mora
O grupo Alimentação e bebidas respondeu por 0,15 ponto percentual do índice total, impulsionado principalmente por hortaliças, frutas e carnes. O preço da cebola subiu 12,4% no mês, reflexo de problemas climáticos nas regiões produtoras do Nordeste e Centro-Oeste. Já o grupo Habitação contribuiu com 0,09 ponto, puxado por energia elétrica residencial — que registrou alta de 2,1% após bandeira tarifária amarela em quatro estados do Sudeste.
Para famílias que destinam entre 25% e 35% do orçamento a alimentação — padrão nas classes C e D, segundo pesquisas de orçamento doméstico — a inflação percebida é significativamente maior do que o índice- chefe sugere. O IPCA é uma média ponderada; quem gasta proporcionalmente mais com itens voláteis sente o impacto de forma mais intensa.
Disparidade regional
O IPCA não é uniforme pelo território nacional. Em maio, a Região Metropolitana de Belém registrou a maior variação entre as capitais pesquisadas: 0,62%. Porto Alegre, em contraste, apresentou deflação de 0,08%, beneficiada pela queda nos preços de hortaliças locais e pela estabilidade do gás de cozinha.
No Nordeste, a combinação de alta sazonal de frutas e pressão sobre tarifas de transporte público elevou o índice regional para 0,49% — o mais alto entre as cinco macrorregiões. O Sudeste, que concentra o maior peso na composição nacional, ficou em 0,35%, próximo da média.
Quando olhamos para a cesta básica ampliada — que inclui itens de higiene e limpeza — a variação em 12 meses chega a 5,8% em algumas capitais do Norte. Isso é muito diferente dos 3,2% do IPCA agregado.
O que desacelerou
Nem todos os grupos pressionaram para cima. Comunicação registrou queda de 0,6%, reflexo da guerra de preços entre operadoras de telefonia móvel. Educação ficou estável, com mensalidades escolares contidas pela concorrência entre instituições privadas em cidades médias. Vestuário apresentou leve alta de 0,2%, dentro do padrão sazonal de outono.
O grupo Transportes, que vinha preocupando analistas nos meses anteriores, desacelerou para 0,3% — ainda positivo, mas bem abaixo dos 0,8% de março. A queda nos preços de combustíveis em duas semanas do mês, após ajuste na política de preços da Petrobras, ajudou a conter o grupo.
Implicações para política monetária
O Banco Central mantém a taxa Selic em 11,25% desde abril, após ciclo de cortes iniciado no segundo semestre de 2025. A leitura de maio reforça a percepção de que o comitê de política monetária (Copom) deve manter postura cautelosa: a inflação de serviços, medida pelo IPCA ex-alimentos e energia, segue em 4,1% acumulada em 12 meses — acima da meta de 3% com tolerância de 1,5 ponto.
Analistas do mercado financeiro projetam manutenção da Selic até setembro, com possível retomada de cortes apenas se o IPCA de serviços mostrar desaceleração consistente nos próximos dois meses. Para o consumidor, isso significa crédito ainda caro e financiamentos imobiliários com taxas elevadas por mais tempo.
O que observar em junho
Três fatores devem influenciar o IPCA do próximo mês: a safra de inverno de hortaliças no Sul, que pode aliviar preços de alimentos; a definição da bandeira tarifária de energia para julho; e o impacto da Black Friday antecipada em alguns varejistas, que já anunciaram promoções para a segunda quinzena de junho.
O Radar Brasil acompanhará a divulgação do IPCA-15, prévia de junho, na segunda semana de julho. Atualizaremos esta análise com os novos dados.
Atualizado em 12/06/2026.